Antes da era IMAX, a Tchecoslováquia levou 70 mm a quase 100 cinemas
O projetor Meopton transformou salas da Tchecoslováquia numa rede de grande formato. A história é mais precisa, e mais interessante, sem o rótulo de IMAX.
Décadas antes de IMAX se tornar uma marca global, quase 100 cinemas da Tchecoslováquia receberam projetores capazes de exibir filmes em 70 mm. A comparação ajuda a imaginar a escala, mas não deve confundir tecnologias: o Meopton era um projetor tchecoslovaco versátil, não uma versão local do sistema IMAX.
A história começa no esforço estatal para modernizar a exibição cinematográfica após a Segunda Guerra. A televisão avançava, e as salas precisavam oferecer algo que a tela doméstica não entregava. Projeção panorâmica, som mais envolvente, maior conforto e imagens de grande formato entraram no centro dessa disputa.
Em 1964, a Tchecoslováquia tinha 2.437 cinemas. Destes, 482 já contavam com telas largas. O passo seguinte era o filme de 70 mm, duas vezes mais largo que o padrão de 35 mm e capaz de projetar uma imagem maior com mais informação visual.
O equipamento que destravou a rede
As primeiras salas tchecoslovacas de 70 mm apareceram em meados da década de 1960. A expansão enfrentava um obstáculo simples: faltavam projetores e cópias. A solução técnica veio de Přerov, onde a fabricante óptica Meopta desenvolveu a linha Meopton.
O modelo mais marcante aceitava tanto cópias convencionais de 35 mm quanto filmes de 70 mm. Essa flexibilidade reduzia o risco para o cinema. A sala podia receber um grande espetáculo quando a cópia larga estivesse disponível e voltar ao repertório comum sem instalar outro equipamento.
Segundo a Filmový přehled, publicação ligada ao Arquivo Nacional de Cinema, quase 100 salas do país foram gradualmente equipadas com o aparelho. Entre 1964 e 1969, 27 cinemas já tinham capacidade de projeção em 70 mm. Em 1974, a rede chegava a 67 salas em operação, incluindo cinemas de verão.
A inovação tchecoslovaca não foi inventar um novo formato de filme. Foi construir um projetor nacional versátil e espalhar a experiência de 70 mm por uma rede surpreendentemente ampla.
Por que chamar de IMAX distorce a história
IMAX é uma empresa e um sistema específico, com padrões próprios de câmera, cópia, projeção e geometria de sala. O cinema tchecoslovaco usava cópias de 70 mm compatíveis com tecnologias internacionais e projetores Meopton produzidos localmente.
Os dois compartilham uma ambição: transformar escala e definição em espetáculo. Mas equivalência de intenção não significa identidade técnica. Chamar o Meopton de “IMAX tcheco” funciona como atalho popular, porém apaga justamente o que torna o episódio original.
A Meopta era, entre 1947 e 1970, a única fabricante de projetores de cinema da Europa Central e Oriental, segundo a história institucional da companhia. Um modelo Meopton recebeu medalha de ouro Grand Prix. O projeto nasceu de capacidade industrial própria, num ambiente em que o acesso a equipamentos ocidentais era limitado.
O primeiro longa tcheco tem uma ressalva
O Arquivo Nacional identifica Vysoká modrá zeď, dirigido por Vladimír Čech e produzido em 1973, como o primeiro filme tcheco realizado com tecnologia de 70 mm. Ele chegou aos cinemas no início do verão de 1974.
Há, porém, uma precisão técnica importante. A obra foi filmada originalmente em 35 mm e ampliada para uma cópia de 70 mm. Não se tratava de captação nativa em negativo de grande formato. O mesmo processo de ampliação foi usado em outras produções do período.
A diferença não reduz o marco histórico. Ela mostra como a indústria aproveitava a infraestrutura disponível. Uma cópia ampliada podia ocupar a tela maior e usar a distribuição sonora do formato, embora não carregasse toda a resolução de uma filmagem originada em negativo mais largo.
Uma experiência cara e difícil de sustentar
O 70 mm exigia salas grandes, projeção precisa e cópias pesadas. A trilha sonora magnética podia ser danificada, o ingresso custava mais e a oferta de filmes era limitada. Para recuperar o investimento, exibidores precisavam transformar cada sessão em evento.
O cinema Alfa, em Praga, tornou-se uma das salas tecnicamente mais avançadas do país depois de reabrir em 1967. Ainda assim, enfrentou escassez de cópias e custos altos. Em 1979, a operação já precisava de condições comerciais mais favoráveis para permanecer sustentável.
A melhoria do 35 mm reduziu a diferença percebida pelo público. Na década de 1990, com o fim da distribuição regular de cópias largas, muitas cabines foram convertidas. O equipamento que havia levado escala a dezenas de cidades passou de infraestrutura corrente a patrimônio técnico.
Krnov mantém a película viva
Parte desse legado ainda funciona. O cinema Mír 70, em Krnov, conserva capacidade para projetar cópias de 70 mm com som magnético de até seis canais numa tela curva de 105 metros quadrados. O local recebe o festival KRRR!, dedicado ao grande formato.
A edição de 2026 foi a décima nona. O evento reúne cópias históricas e público disposto a viajar para experimentar o que a digitalização tornou raro: o som do projetor, a troca de rolos, a textura da película e uma imagem criada por luz atravessando material físico.
Para a Tchéquia, a história do Meopton amplia a noção de patrimônio cultural. Cinema não é apenas filme, diretor e ator. É também lente, mecânica, arquitetura, cabine e conhecimento de projeção. Sem esses elementos, uma obra pode continuar preservada e ainda assim perder a forma para a qual foi exibida.
O interesse renovado por grandes produções em película faz essa memória parecer atual. A resposta tchecoslovaca dos anos 1960 não precisa ser apresentada como imitação antecipada de Hollywood. Ela foi uma solução industrial própria, construída para uma rede nacional e suficientemente durável para ainda projetar imagens seis décadas depois.