Espanha: mais moradias, menos pessoas por casa
Projeções oficiais mostram lares crescendo mais rápido que a população e colocam imigração e habitação na mesma conta espanhola.
As duas projeções oficiais divulgadas no mesmo dia pelo instituto de estatística dizem que a população cresce só por migração e que o número de lares cresce mais rápido do que a população. Juntas, explicam a pressão sobre o preço da casa melhor do que qualquer debate sobre o tema. O Instituto Nacional de Estatística de Espanha publicou duas projeções coerentes entre si, e a leitura conjunta delas é mais interessante do que a de cada uma isolada. A primeira diz que, mantidas as tendências atuais, o país só cresce em população porque recebe gente de fora. A segunda diz que o número de lares cresce mais depressa do que o número de pessoas. Comecemos pela demografia. Nos quinze anos seguintes, Espanha ganharia 4.251.150 habitantes, chegando a mais de 53,8 milhões em 2041. Em todos os anos do período haveria mais óbitos do que nascimentos, e em todos os anos o saldo migratório seria positivo. O instituto escreve a conclusão sem meias palavras: o aumento populacional deve-se exclusivamente à migração internacional. Até 2075, o ganho líquido por migração seria de 15,5 milhões de pessoas. Agora a habitação. A projeção de lares aponta 2.184.048 novos lares entre 2026 e 2041, um crescimento de 11,1%, chegando a 21.943.397. No mesmo período, a população residente em habitações familiares cresceria 4.140.364 pessoas, ou 8,4%. Os dois números não crescem no mesmo ritmo, e essa diferença é o ponto. O tamanho médio do lar cairia de 2,49 para 2,43 pessoas. A quebra por tamanho é ainda mais reveladora. Os lares de uma só pessoa passariam de 5.620.017 para 6.723.570, um salto de 19,6%. Os de duas pessoas cresceriam 16,7%. Os de três, apenas 3,6%. E os de quatro ou mais pessoas encolheriam 0,4%. Em 2041, o lar unipessoal seria o tipo mais frequente do país, com 30,6% do total, ultrapassando os de duas pessoas. Cruzando as duas projeções, aparece a mecânica que nenhum debate político costuma explicitar. A procura de habitação não cresce ao ritmo da população, cresce ao ritmo dos lares. Um país que ganha 8,4% de residentes e 11,1% de lares precisa de mais casas do que a variação populacional sugere, porque cada casa passa a abrigar menos gente. E como o crescimento da população vem inteiramente de fora, quem chega entra numa procura que já estava a subir por razões internas, de composição familiar, e não por causa da chegada. Isso muda a forma de ler a manchete sobre preço de casa em Espanha. O aumento do custo de habitação tem um componente estrutural que não depende de quem entra no país: o encolhimento do lar médio. Ao mesmo tempo, o componente migratório é real e é o que sustenta a população total. As duas coisas convivem, e tratar uma como explicação única da outra é errar o diagnóstico. Para quem planeja mudar-se, três consequências práticas. A primeira é geográfica. Comunitat Valenciana, com 16,4%, e Illes Balears, com 16,2%, teriam os maiores crescimentos relativos de população em quinze anos, enquanto Extremadura recuaria 4,5% e Asturias 1,6%. Mercado de trabalho e mercado de arrendamento seguem essa geografia. A segunda é etária. A população de 65 anos ou mais sobe dos atuais 21,1% para um máximo de 30,9% em 2076, o que empurra procura para saúde, cuidados e serviços de proximidade. A terceira é de composição: a fatia nascida em Espanha cai de 79,8% para 59,6% em cinquenta anos, e isso desenha o país em que os filhos de quem chega agora vão crescer. Vale repetir a advertência que o próprio instituto faz, e que é a parte mais ignorada deste tipo de documento. Projeção não é previsão. O exercício mostra o que aconteceria se as tendências atuais se prolongassem, combinadas com a opinião de demógrafos consultados por inquérito. Não tem como objetivo determinar a evolução mais provável. Fecundidade, mortalidade e fluxo migratório mudam, e a próxima edição reescreve a curva. Também é preciso dizer o que estes dois documentos não fazem. Não alteram nenhuma regra de residência, não criam via de entrada, não fixam quota e não antecipam decisão de governo sobre regularização. São estatística pública. O que eles oferecem a quem decide onde viver é algo diferente e mais raro: a moldura de longo prazo dentro da qual as regras de curto prazo vão ser escritas.