GAO aponta desperdício na expansão da detenção do ICE e cobra planejamento
Auditoria registra compra de 11 galpões por US$1,07 bilhão, intenção de vender sete e mais de US$20 milhões em custos não recuperáveis. DHS aceitou recomendação.
O Government Accountability Office (GAO), órgão de auditoria ligado ao Congresso dos Estados Unidos, apontou falhas de planejamento na expansão da detenção migratória do ICE. Em relatório publicado em 24 de setembro de 2026, registrou a compra de 11 galpões por cerca de US$1,07 bilhão e a intenção, informada pela agência em junho, de vender sete deles.
Segundo a auditoria, os imóveis que o ICE pretendia vender já haviam gerado mais de US$20 milhões em custos não recuperáveis, como avaliações e segurança. Esse montante não é o mesmo que o preço de aquisição dos prédios, e a intenção de venda não comprova que as transações tenham sido concluídas.
O que a auditoria pediu ao governo
O GAO recomendou um plano estratégico abrangente, com objetivos, atividades e necessidades de recursos. O Departamento de Segurança Interna (DHS) concordou e informou previsão de conclusão em 31 de agosto de 2027. Para os auditores, uma entrega mais rápida pode ser necessária.
A análise combinou documentos, dados de custos e entrevistas, incluindo visitas a oito instalações no Texas e na Flórida. Os resultados dessas visitas não são automaticamente generalizáveis a todas as unidades de detenção.
Por que preço de compra e desperdício são valores diferentes
Uma compra de imóvel troca recursos financeiros por um ativo. Para avaliar seu resultado, não basta olhar apenas o valor pago: é preciso considerar utilização, manutenção, adaptação e eventual venda. Isso não elimina a possibilidade de desperdício, mas impede atribuir ao prejuízo uma cifra que representa outra categoria.
No caso dos galpões, a leitura correta separa pelo menos três perguntas: quanto foi gasto para adquirir o patrimônio, quais despesas já não podem ser recuperadas e quanto ainda poderá ser obtido com a alienação. Sem o desfecho das vendas e o conjunto dos custos, não cabe anunciar uma perda final de US$1,07 bilhão.
Também não é adequado tratar uma possível receita futura como se já tivesse entrado no caixa público. Recuperar parte do preço de compra não desfaz despesas consumidas durante o período em que o imóvel ficou sob responsabilidade do governo.
O problema de contratos que ignoram a ocupação
Uma auditoria anterior, publicada em junho de 2026, oferece outro exemplo concreto. No Camp East Montana, em Fort Bliss, Texas, o GAO identificou contratos que cobravam refeições e serviços para a capacidade máxima de 5 mil pessoas mesmo quando a ocupação era muito menor. No fim de fevereiro, havia cerca de 1,6 mil pessoas detidas na instalação.
O órgão recomendou mecanismos como preços ajustados à população atendida. Também encontrou problemas de fiscalização e de cumprimento de padrões de detenção na abertura da unidade. Essas conclusões dizem respeito àquela auditoria e àquele estabelecimento; não são uma descrição automática de todos os galpões ou instalações atuais.
Na página de acompanhamento, a recomendação sobre custos permanecia aberta, com o DHS indicando a intenção de migrar o contrato para preços escalonados até o fim de 2026. Concordar com uma recomendação e concluir sua implementação são etapas distintas.
Desperdício não é sinônimo automático de fraude
O próprio GAO diferencia os conceitos. Desperdício envolve custos desnecessários associados a práticas, sistemas ou controles ineficientes. Fraude envolve obtenção de algo de valor por falsa representação deliberada, conforme apuração judicial ou outro procedimento decisório competente.
Assim, uma conclusão de auditoria sobre desperdício não equivale, isoladamente, a uma condenação criminal de servidores ou fornecedores. A distinção não reduz a gravidade do achado: ela define o que a evidência permite afirmar. Para o controle do gasto público, metas, inventário e fiscalização ajudam a identificar problemas antes que novos compromissos sejam assumidos.
O que observar nas próximas etapas
A General Services Administration (GSA) administra a destinação de imóveis federais excedentes. Sua orientação geral prevê vendas públicas, negociações em situações específicas e transferências para usos públicos. Isso não significa que qualquer um dos sete galpões mencionados pelo GAO já esteja em leilão ou tenha comprador definido.
Os próximos marcos relevantes são a implementação do plano, a situação das recomendações e a destinação efetiva dos imóveis. Na leitura de novos anúncios, convém manter separados cronograma previsto, contrato assinado, dinheiro pago e operação efetivamente iniciada. O relatório fiscaliza decisões de infraestrutura e gasto; não altera, por si só, a situação migratória individual de quem vive nos Estados Unidos.